“Que acabe a loucura da guerra!”, implorou Leão XIV
No contexto das delicadas negociações entre os Estados Unidos e o Irã, o Papa Leão XIV fez um apelo ao diálogo e à renúncia a qualquer fantasia de onipotência

“Chega de idolatria do eu e do dinheiro! Chega de demonstrações de força! Chega de guerra!”, exortou o Papa Leão XIV em sua meditação durante o Rosário pela Paz. No contexto das delicadas negociações entre os Estados Unidos e o Irã após mais de 40 dias de guerra que semearam o caos no Oriente Médio, o pontífice fez um apelo ao diálogo e à renúncia a qualquer fantasia de onipotência.
“Queremos dizer ao mundo que é possível construir a paz, uma nova paz; que é possível viver juntos, com todos os povos, de todas as religiões, de todas as raças; e que queremos ser discípulos de Jesus Cristo, unidos como irmãos em um mundo de paz”, declarou o Papa poucos minutos antes do início da liturgia. Proferiu um breve discurso improvisado nas escadas da basílica, diante dos fiéis reunidos na Praça de São Pedro.
A celebração foi marcada pela meditação sobre os gloriosos mistérios do Rosário e por leituras da Bíblia e dos escritos dos Padres da Igreja: São Cipriano de Cartago, São César de Arles, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio de Milão e Santo Agostinho de Hipona. Durante as orações, fiéis dos cinco continentes se revezavam para acender uma lâmpada colocada ao pé da estátua de Maria Regina Pacis (Mãe da Paz), usando a lâmpada da paz trazida de Assis.
“A guerra divide, a esperança une. A tirania pisa, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina”, enfatizou o Papa em uma profunda meditação inspirada no tempo pascal. “Somos um povo que já se levanta de novo!”, declarou o Bispo de Roma.
Ele enfatizou que a oração “não é um refúgio para fugir de nossas responsabilidades” ou “um anestésico para evitar a dor que tanta injustiça desencadeia”, mas sim “a resposta mais livre, universal e profundamente comovente à morte”.
“Nada pode nos aprisionar em um destino já escrito, nem mesmo neste mundo onde os túmulos parecem não ser suficientes, porque continuamos crucificando, aniquilando a vida, sem direito e sem piedade”, insistiu o Papa no final desta semana da Oitava de Páscoa.
No Reino de Deus, “não há espada nem drone”
Inspirado na dupla herança do famoso apelo de Paulo VI, “Nunca mais a guerra!”, pronunciado nas Nações Unidas em 1965, e no compromisso de João Paulo II contra as guerras do Iraque em 1991 e 2003, Leão XIV pediu para quebrar “a cadeia demoníaca do mal”. Ele exortou todos a se colocarem “a serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espada, nem zumbido, nem vingança, nem trivialização do mal, nem benefício injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão”.
O líder da Igreja Católica se pronunciou “contra essa ilusão de onipotência que, ao nosso redor, se torna cada vez mais imprevisível e agressiva”. “O equilíbrio dentro da família humana está seriamente desestabilizado”, lamentou, observando que “mesmo o santo Nome de Deus, o Deus da vida, está sendo arrastado para discursos de morte” nos que, “como em um pesadelo, a realidade está povoada de inimigos”.
Aparentemente aludindo aos discursos dos líderes americanos, mas sem mencionar nenhum país em particular, o Papa enfatizou que “a verdadeira força se manifesta a serviço da vida”. Como João XXIII, ele ecoou as palavras pronunciadas por Pio XII no início da Segunda Guerra Mundial: “Com a paz, nada se perde; mas com a guerra, tudo pode ser perdido”.
“Unimos, portanto, as energias morais e espirituais de milhões, inclusive bilhões de homens e mulheres, de idosos e jovens, que hoje acreditam na paz, que escolhem a paz, que curam as feridas e reparam os danos causados pela loucura da guerra”, exortou o Papa, convidando em particular a ouvir “a voz das crianças”.
A urgência do diálogo
“Pare! É tempo de paz! Sentem-se à mesa do diálogo e da mediação, não à mesa onde se planeja o rearmamento e se deliberam atos de morte!”, instou o Papa, em meio a uma intensa atividade diplomática. Negociações sem precedentes começaram hoje no Paquistão entre o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e vários altos funcionários iranianos, após mais de 40 dias de guerra que assolou o Oriente Médio. Negociações diretas entre Israel e Líbano também devem começar em Washington na próxima semana, após os bombardeios maciços israelenses que causaram a morte de mais de 300 pessoas em Beirute em 8 de abril.
“A oração nos compromete a transformar o que resta de violência em nossos corações e mentes”, insistiu também o Papa, dirigindo-se à “imensa multidão” de cidadãos do mundo convidados a promover atitudes de paz em sua vida cotidiana e a “voltar a acreditar no amor, na moderação e na boa política”.
“Nunca mais a guerra, uma aventura sem volta; nunca mais a guerra, uma espiral de luto e violência”, insistiu, ecoando as palavras de João Paulo II durante a Guerra do Golfo em 1991. “Irmãos e irmãs de todas as línguas, de todos os povos e de todas as nações: formamos uma única família que chora, que espera e que se levanta novamente”, assegurou Leão XIV.
A oração recitada pelo Papa
Aqui está o texto completo da oração recitada pelo Papa no final de seu discurso:
“Senhor Jesus, você venceu a morte sem armas nem violência: você aniquilou seu poder com o poder da paz.
Dê-nos a sua paz, como você deu às mulheres indecisas na manhã de Páscoa, como você a deu aos discípulos escondidos e assustados.
Envie seu Espírito, o sopro que dá vida, que reconcilia, que transforma adversários e inimigos em irmãos e irmãs.
Inspire-nos a confiança de Maria, sua mãe, que, com o coração partido, estava ao pé de sua cruz, firme na fé de que você ressuscitaria.
Que a loucura da guerra acabe e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem como criar, como preservar, como amar a vida.
Ouça-nos, Senhor da vida!
